[#SrDosLivros2Anos] Os Dragões de “A Queda de Gondolin” – COLAB

AQuedaDeGoldolin (1)

Post por Sérgio Ramos
Co-fundador do Canal Tolkien Talk e consultor tolkienista da HarperCollins Brasil

 MUITO OBRIGADA Sérgio pela maravilhosa colaboração nesse especial!

imagemsodacapablogO lançamento do mais recente livro de J.R.R. Tolkien, “A Queda de Gondolin”, apresenta algumas versões diferentes do conto de mesmo nome, que na verdade foi o primeiro escrito com a temática da Terra-média. É interessante observar que os textos mais antigos apresentam forma de escrita e elementos bem diferentes do que aquilo que veríamos posteriormente, como em “O Hobbit” e “O Senhor dos Anéis”.

Um desses elementos que mudaram radicalmente foi quanto aos Dragões. Segundo J.R.R.T., o dragão era sua criatura mitológica preferida desde a infância. Tanto em sua Biografia oficial quanto em suas Cartas está registrada sua primeira experiência ao tentar escrever uma história.

Ainda menino, Ronald Tolkien recorda-se de ter esboçado as primeiras linhas de um conto envolvendo um dragão, e ele teria escrito que seria “um verde grande dragão”. O adulto Tolkien se recorda do fato como algo marcante, já que lembra que sua mãe, ao ler aquelas linhas, o corrigiu dizendo que o correto seria “um grande dragão verde”. Segundo o autor, aquilo o marcou de alguma forma, já que ficou um bom tempo sem tentar escrever nada.

Como sabemos, a história antiga que mais o inspirou foi o clássico poema anglo-saxão “Beowulf”, que conta as histórias de bravura de um antigo guerreiro na terra dos Daneses. Em sua juventude, Beowulf enfrentou e venceu o ogro Grendel e sua terrível genitora. Décadas depois, já rei e com a maturidade consolidada, o herói é impelido a enfrentar um brutal dragão cuspidor de fogo. O dragão foi o desafio final daquele homem prodigioso.

Outro dragão que influenciou bastante o criador da Terra-média foi Fáfnir, que aparece no Edda, obra da mitologia nórdica. Sigurd, o personagem central da Saga dos Volsungos, aceita a incumbência de aniquilar o dragão. Ao matar a grande besta, Sigurd banha-se em seu sangue e fica com o corpo invulnerável, exceto por um ponto onde o sangue não entrou em contato com sua pele.

Para Tolkien, o dragão era a maior provação pela qual um herói teria que passar. Não à toa, alguns dos maiores guerreiros humanos de seu Legendário tiveram que derrotar dragões para firmar lugar no hall de heroísmo: o marinheiro Eärendil, Túrin Turambar, Fram dos Éothéod, o arqueiro Bard.

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Smaug – Dragão enfrentado pelo arqueiro Bard em O Hobbit

Voltando então para “A Queda de Gondolin”, seria de se esperar que, no primeiro conto dentro de seu mundo sub-criado, como o autor gostava de se referir, tivesse a presença de Dragões. Na verdade, os grandes répteis são aqui o grande destaque no ataque que põe abaixo o último reduto élfico de resistência contra o Senhor do Escuro. Enquanto os Elfos celebravam, as hostes de Dragões descem pelas montanhas circundantes que protegiam a localização da cidade e atacam com fúria total, seguidos por Orcs e Balrogs.

Porém, é de se notar que havia mais de um tipo de dragão no relato, alguns até com natureza menos orgânica e mais mecanizada. Alguns tolkienistas (estudiosos de Tolkien) consideram haver aqui um certo aspecto biográfico. Em 1916, ocorreu a Batalha do Somme, a mais sangrenta de toda a Primeira Guerra Mundial, onde Tolkien tomou parte como Segundo-Tenente do Batalhão de Fuzileiros Lancashire. Naquela ocasião, foi a primeira vez em que um tanque de guerra fora utilizado na história militar.

Segundo o relato presente no “Conto Original” da Queda de Gondolin, escrito pouco depois da retirada de Tolkien da guerra, havia na invasão à cidade élfica dragões de bronze e ferro que “se abriram na parte do meio e uma hoste inumerável de Orcs, os gobelins do ódio, despejaram-se pela brecha”. Ou seja, havia na mitologia tolkieniana, em sua gênese, um tipo de dragão metálico que carregava em seu interior companhias de soldados Orcs.

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 “Huor e Húrin chegam à Gondolin – Ilustração por Donato Giancola

É difícil não ver relação entre os tanques que assomaram na Batalha do Somme na França com os dragões-tanques se chocaram contra Gondolin carregando as hostes do Senhor do Escuro. A memória da Grande Guerra ainda estava vívida no coração do jovem oficial J.R.R. Tolkien, retirado do conflito após ser acometido por febre das trincheiras, uma doença comum naquele ambiente insalubre.

Além dos dragões “mecanizados”, havia um outro tipo: dragões de chama. Eram feitos inteiramente de fogo, mas com alguma solidez corporal, já que serviam de montaria para os Balrogs. Vamos relembrar que Balrogs eram os mais terríveis servos de Melko (nome primitivo daquele que posteriormente seria “Melkor”). Eram criaturas angelicais com espíritos de fogo, corrompidas para a vassalagem do Senhor do Escuro. Naquele ponto da mitologia, cavalgavam os dragões de chama. Essas serpentes de fogo reabasteciam seus calores nos poços de fogo que Melko tinha construído em sua própria fortaleza.

Atuando em conjunto, os dragões metálicos e os de chama conseguiram uma boa estratégia para invadir a quase inexpugnável Gondolin. A cidade ficava em cima de um monte íngreme e escorregadio por causa da água que caía, o que impedia que as grandes feras escalassem suas encostas. Então, Gothmog, senhor dos Balrogs, monta uma estratégia para que a invasão tenha sucesso: as serpentes de bronze subiriam por cima das de ferro e, na altura dos muros, uma brecha seria aberta para que os Balrogs passassem cavalgando os dragões de chama.

Percebe-se, portanto, que à época do Conto Original de “A Queda de Gondolin”, Tolkien concebeu não apenas as grandes serpentes tais como as conhecemos, criaturas reptilianas com garras, dentes afiados, corpo alongado, cauda poderosa, mas também criaturas draconianas de bronze e metal, com ventre oco onde eram transportadas hostes de Orcs. Além disso, havia aqueles feitos inteiramente de chamas, os quais serviam de montaria para os demônios conhecidos como Balrogs.

Posteriormente, em seu Legendário, Tolkien retiraria de suas lendas esses dragões metálicos e de chamas. Possivelmente, o autor preferiu retornar à tradição de suas influências mitológicas, deixando seus grandes répteis mais parecidos com aquele de Beowulf e o Fáfnir, por exemplo. Apareceriam também os dragões alados, terríveis instrumentos de destruição aérea, mas os maiores, segundo escritos publicados em “A História da Terra-média” eram realmente os que se arrastavam no solo, a exemplo de Glaurung, o Pai dos Dragões.

Há muito que se falar sobre os Dragões nos escritos tolkienianos, mas, a partir do que vemos em “A Queda de Gondolin”, é possível constatar como essas criaturas foram importantes para o criador da Terra-média e como podem ter tido até uma certa influência biográfica quando da gênese de sua mitologia nos idos de 1917.

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Incrível não?!

A Queda de Gondolin está sendo sorteado nesse especial de aniversário, acesse para participar: https://goo.gl/YCDyBB

Conheçam o trabalho do Sérgio e acompanhem o Tolkien Talk para não perder nenhum conteúdo incrível como esse.

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E confiram canal Tolkien Talk um vídeo muito legal sobre Glaurung – O Pai dos Dragões

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8 comentários sobre “[#SrDosLivros2Anos] Os Dragões de “A Queda de Gondolin” – COLAB

  1. Papeando Livros disse:

    Oi, tudo bem ?

    Nossa que post rico e incrível. Tolkien tem uma escrita maravilhosa que nos deixa todo um universos, criaturas, a criação da línguas (como por ex. a dos elfos) e etc. Coisas fantásticas mesmo que nos deixam fascinados. Amo dragões e o poder que eles atribuem a história é maravilhoso, além de serem assustadores … saber um pouco mais deles e um pouco sobre o processo do autor enriqueceu o post,deixando a leitura divertida e bem especial. O livro com toda certeza é uma ótima indicação.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Gisele Lopes - Abdução Literária disse:

    Que post incrível! Eu já cansei de me martirizar por não ler Tolkien, então resolvi que vou aceitar essa realidade. Mas com esses posts vocês não facilitam as coisas, né? As edições lançadas pela HarperCollins estão magníficas, tô babando. Todas essas referências aqui encheu meus olhos, e a maior apelação do mundo é colocar dragão na parada. QUERO! Aceitei é nada, já tô marcando minha próxima tentativa com o autor. Eu preciso fazer parte desse mundo! Hahaha.
    Brincadeiras à parte, parabéns Sérgio e Vivi pelo post, tá realmente cativante.

    Beijos!
    http://abducaoliteraria.com.br

    Curtido por 1 pessoa

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