[RESENHA] O CONTO DA AIA

OContoDaAia (3)

Título Original: The Handmaid’s Tale

Autora: Margaret Atwood

Editora Rocco – Ed. 2006 –  368 pág

INDICADO PARA MAIORES DE 18 ANOS

SKOOB

O nome dela nós não sabemos, mas agora é chamada de Offred.

Sua vida era bem comum, ela tinha uma mãe, um marido, uma filha. Mas nessa época os detalhes importavam para a sociedade. Sua mãe decidiu ter uma filha sozinha, nunca se casou. Seu marido era divorciado. Sua filha era saudável.

No Maine, em um futuro sem data prevista, tudo isso é sinônimo de perigo. As mulheres conquistaram direitos demais, o casamento e as relações são descartáveis, não respeitam a sagrada união e homens e mulheres se tornaram cada vez mais doentes e estéreis, a radiação e a poluição causaram uma queda brusca na natalidade.

Em um golpe de estado, toda a realidade dessa população muda. Da noite para o dia as mulheres são proibidas de trabalhar, elas não podem possuir bens, são oprimidas e obrigadas a viver na sombra dos homens. Mas no caso da nossa protagonista nem isso é possível, seu casamento é anulado por não ser legitimamente reconhecido pelo novo governo militar. Para continuar ao lado de seu marido e sua filha eles planejam uma fuga. Tudo dá errado.

Agora ela é Offred, sua vida não lhe pertence. Ela foi enviada ao Centro Vermelho para aprender a ser uma Aia. Ela é propriedade do governo que a considera fértil.

Seu corpo não lhe pertence mais. No Centro Vermelho todas as mulheres são educadas para serem incubadoras. Sua tarefa daqui em diante é somente gerar filhos saudáveis para dar continuidade à população.

Essas mulheres vivem sem lazer, amizades, sem direito a palavra, a ler, escrever, pensar. Elas não são ninguém. São apenas corpos que passam de casa em casa cumprindo contratos para gerar crianças. Da forma mais absurda possível todos os meses elas se deitam com o comandante que a alugou para tentar a concepção e caso elas falhem por muito tempo o destino delas será ainda pior, porque o governo retrocede ao ideal de que a culpa da infertilidade é somente feminina.

Offred é quem nos conta essa história, embora ela mesmo admita que não queria esse papel. A narrativa é triste, pesada, não existe nenhum tipo de amor na vida das Aias. Pelo olhar da protagonista conhecemos o desespero calado que as mulheres vivem durante esse período repressor.

Eu me senti mal por cada mulher oprimida, mas principalmente pela passividade com que Offred enfrenta a situação na maior parte do tempo. Nunca conseguirei entender como ela foi capaz de suportar tamanha tristeza na vida. E sempre sozinha.

A autora afirma que essa é uma ficção especulativa e deixa claro que usou relatos reais para dar forma a história. Ela nos convence de que absolutamente tudo nessa história pode sim acontecer da noite para o dia.

Tive muita dificuldade em aceitar que esse é um futuro possível, primeiro porque é terrível demais e segundo porque realmente é verdade. E temos muita dificuldade em aceitar a verdade quando ela dói.

A humanidade realmente caminha para o pior.

A piora da qualidade de vida, uma industrialização sem fim, a constante opressão feminina, a mulher ainda é o maior alvo da violência de todas as formas físicas e psicológicas possíveis. Como podemos ter conquistado tanto e mesmo assim ver que em tantos locais do mundo a mulher ainda é apenas um objeto?! E são sempre os mesmos argumentos, de que isso é o melhor para ela, ou ainda pior, que é em nome de Deus.

O papel dessa obra não é entretenimento. Ela foi feita pra te fazer pensar seus valores, crenças, suas atitudes diante do mundo que você vive.

Se eu indico? Sim, com certeza. Todos precisam sempre estar atentos aos conceitos de suas vidas e de como valorizam suas liberdades, e de o que fazem com suas liberdades, esse é o ponto.

Composto por 15 capítulos e notas históricas esse livro com pouco mais de 300 páginas foi um desafio pra mim, eu não queria seguir a leitura até o fim porque ela incomoda demais, é crua e cruel demais. Principalmente quando você começa a ver que a nossa história real tem relatos muito similares.

Esse ano foi adaptada uma série sobre esse livro, tem sido muito comentada e ouvi relatos de que ela completa algumas lacunas do livro. Mas realmente não sei se vou assistir. Estou mais afim de “desler” esse livro. Quem sabe mais pra frente… O que vocês acham???

o-conto-da-aia-3-acervo-do-leitor

Acredito que o sucesso da obra na atualidade se deve ao cenário político que vivemos, a exemplo do atual presidente dos EUA que ameaça retornar a sociedade valores rígidos e patriarcais, retrocedendo nas conquistas de vários direitos.

Essa foi uma leitura realizada para o clube de leitura Cápsula Literária, foi nossa penúltima leitura de 2017, a discussão dessa obra foi bem rica e dividiu opiniões sobre os temas da obra. No fim estávamos de cérebro suado, mas com ideias mais definidas sobre as possibilidades do livro. Eu particularmente ainda acho ele um pesadelo, mas entendi as razões de cada tema complexo abordado.

51H77uLNWDL._SY346_Realizei a leitura em ebook, mas tive a oportunidade de folhear o exemplar físico e ele está realmente muito bom.

Indico muito que se você já leu ou pretende ler, converse sobre os temas, discuta aqui ou com amigos, fale, expresse as sensações que essa leitura te causou, vai ajudar bastante.

 

Anúncios

30 comentários sobre “[RESENHA] O CONTO DA AIA

  1. Cecília Justen disse:

    Ei! Tudo bem?

    Vivi, que resenha mais maravilhosa! Que livro mais profundo! Fiquei completamente tensa enquanto lia sua resenha e agora não sei se conseguiria ler a obra, mesmo tendo vontade. Infelizmente, concordo quando você escreve que estamos caminhando para um caminho como esse da história. Isso me leva a arrepios e não sei se conseguiria lidar com o livro exatamente por isso. De qualquer maneira, quero dar uma chance assim que me sentir bem para ler. Sua resenha me deixou com mais vontade ainda de realizar esta ação!

    Beijos!
    Blog | As 365 Cores do Universo

    Curtido por 1 pessoa

  2. Jessica Rabelo | Fantástica Ficção disse:

    Oii Vivi tudo bem? Caramba que livro forte heim. A verdade com certeza dói. Principalmente quando ela é horrível. Gostei bastante da premissa do livro. O mundo precisa disso. De pessoas que digam chega e de pessoas que escrevam chega para as barbaridades. Que as futuras gerações sejam melhores que a nossa. Porque se forem piores, estaremos perdidos
    Parabéns pelo post.
    Beijos.

    Curtido por 1 pessoa

  3. Ariela Oliveira disse:

    Olá! Até o momento não conhecia a história desse livro, a sua resenha foi a primeira que li. Acho que é importante lermos sim para não deixar que isso aconteça realmente ou piore a situação atual, pois é visível que ainda hoje nós mulheres não temos todo respeito que merecemos. Gostaria de ler esse livro, mas provavelmente farei isso mais pra frente, temas difíceis assim são complicados de serem “digeridos”. Parabéns pela resenha, bjs

    Curtido por 1 pessoa

  4. Amor pelos Livros disse:

    Eu conheci a obra pela série (sabia que tinha sido baseada em um livro, mas não qual) confesso que não tenho vontade de ler e nem de assistir. Porque é como você relatou, por mais que seja fictício, muitas das coisas relatadas nós vemos acontecer até hoje, e em países onde a “igualdade” impera.
    Esse é o tipo de leitura que não te tira da caixa, e sim te joga na atmosfera e rouba todo o oxigênio, ainda não tenho toda essa força para encarar. kkkkkkkkk
    Parabéns, amei a resenha!

    Curtido por 1 pessoa

  5. Gisele Lopes disse:

    Oi Vivi! Adoro distopias, pelas críticas à sociedade e a reflexão que nos trás, mas ao mesmo tempo é assustador, né? Não só pela possibilidade de se tornar real, mas também por saber que algo desse tipo já acontece. Esse é o tipo de livro essencial, que todo mundo deveria ler. Eu, inclusive! Haha. Não vejo a hora de ler o livro e depois conferir a série. Adorei a resenha, beijos!

    Curtido por 1 pessoa

  6. blogcomv disse:

    Uau, que temática pesada mas importante! Tenho uma amiga que me indica livros ótimos e me falou desse, mas eu só estava lembrada da autora e agora estou pasma, o pior é que infelizmente diante de alguns absurdos certas coisas não parecem tão improváveis… Parece uma leitura incrível mas dolorosa, eu sofro demais com essas coisas 😦 Em relação à série, eu não sei se veria, porque já parece tão pesado na leitura…

    Um beijo, Carol
    blogcomv.org

    Curtir

  7. clubedofarol disse:

    Eu não fazia ideia que esse livro era sobre algo tão pesado. Eu vi fotos do livro no Instagram, mas nem li nada sobre ele. Me surpreendi lendo a sua resenha. Esse livro parece ser tão necessário, principalmente com algumas coisas que você mencionou que não parecem impossíveis de acontecer. Não sei se eu conseguiria o ler, tenho mais medo de livros assim do que livros de terror, porque eles são mais reais, sabe?
    Parabéns pela resenha!
    Bjo
    ~Danii

    Curtido por 1 pessoa

  8. gataliteraria disse:

    Oi Vivi, seu texto está incrível, muito bem escrito! Não sabia também que esse livro era tão pesado. Eu achava que era poesia kkk, nem sabia que tinha uma série. Não é um livro que eu me interesse, não gosto muito de livros assim tão cruéis, já basta a realidade. Mas acho importante a discussão e a valorização dos direitos conquistados.

    Curtido por 1 pessoa

  9. Isis Melo disse:

    Com essa resenha cirei dúvidas sobre a humanidade, certamemte a escrita consegue tocar o findo de sua mente e criar dúvidas,sentir a dor e a incerteza, mas admiro principal por aguentar, seve ter sido doloroso e até um tanto perturbador ou incomodativo ler com medo de um final sem qualquer salvaçãocpara humanidade. Parabens pela resenha

    Curtido por 1 pessoa

Deixe seu comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s