[RESENHA] FAHRENHEIT 451

Título Original: Fahrenheit 451

Autor: Ray Bradbury

Editora Globo – Biblioteca Azul – ed. 2012 – Ebook

INDICADO PARA MAIORES DE 14 ANOS

Skoob

Fahrenheit451 (1)Fahrenheit 451 foi publicado em 1953 em um mundo pós-guerra dominado pelo regime totalitarista, nesse ambiente Ray criou um mundo futurista. A história se passa em meados de 1990 e a sociedade vive um cotidiano superficial onde só importa “ser feliz”, viver somente bons momentos e fechar os olhos para qualquer coisa que traga infelicidade. Esse é um mundo onde os livros são proibidos e pensar ou questionar é crime. Ficou curioso? Então vamos à resenha de um dos melhores livros que li na vida.

Guy Montag, nosso protagonista, é um orgulhoso bombeiro. Sua tarefa, diferente do que conhecemos, não é apagar incêndios, mas sim começá-los. Os bombeiros são acionados sempre que alguém denuncia uma pessoa que tenha livros em casa. Montag e sua equipe chegam para atear fogo nos livros, na casa e se necessário no dono dos livros também.

“Estranho. Uma vez me disseram que, muito tempo atrás, as casas pegavam fogo por acidente e as pessoas precisavam dos bombeiros para deter as chamas.” Posição 285

A sociedade vive uma total alienação e falta de empatia. A mulher de Montag chega a ter uma overdose de remédios para dormir sem nem mesmo perceber. A equipe que “troca” o sangue dela para limpar seu organismo diz que isso é comum, acontece todo santo dia, todos tomam essas pílulas. As ocupações diárias são com a programação da TV que em vários momentos é chamada de “família”, as pessoas interagem com os programas de televisão em tempo real e não sabem quem são seus vizinhos. Alguma semelhança com nosso mundo atual? O manual para montar eletrônicos é a única coisa que as pessoas se preocupam em ler. Mas entendam, o governo não obriga as pessoas a nada, as escolas e a educação existem, o que o governo faz é facilitar a venda desses telões de televisão interativa (cada casa chega a ter 4 por sala, uma realidade totalmente virtual) e induzir as pessoas a acreditarem que “pensar” é perda de tempo. Mas é a própria população quem decide seguir essa filosofia e pouco a pouco abandona o hábito da leitura para se dedicar somente a realidades interativas e virtuais que causam a sensação de euforia imediata e ilusória, as pessoas se esquecem que experiências ruins também são necessárias nas nossas vidas, para o nosso amadurecimento.

Fahrenheit451 (2)

O livro é dividido em 3 partes. Na primeira Montag conhece Clarisse uma vizinha diferente. Na casa dela as pessoas conversam entre si, riem juntas e ficam unidas em reuniões familiares, eles não ficam em torno dos telões de TV. Clarisse é questionadora e pensante, ela conversa com Montag enquanto caminha na rua observando a grama e a natureza. Ninguém mais faz isso.

“Aposto que sei de mais uma coisa que você não sabe. De manhã, a grama fica coberta de orvalho.

Subitamente, ele não conseguiu se lembrar se sabia disso ou não, e ficou muito irritado.” Posição 305

A partir desse momento Montag começa a se questionar sobre a forma como vive a sociedade. O ápice acontece quando Montag adoece depois de atender um chamado que precisou incendiar uma casa com livros. Ele revela para sua esposa que tem pegado livros dessas casas furtivamente antes de incendiá-las, ele tem até mesmo uma Bíblia!

“Qual seria o próximo passo da barbárie? Queimar os próprios homens, para apagar de vez a memória dos livros?” Prefácio.

Seu comandante Beatty o pressiona dando indícios de que sabe o que está acontecendo. Eles tem um diálogo intenso em que Beatty faz longas citações literárias e aponta finalmente para Montag que livros ensinam um monte de palavras, mas não podem te salvar do sofrimento. Aqui fica muito claro que o regime totalitarista da obra não é violento e sim cultural, ele se estabelece através da sociedade de consumo e felicidade imediata. Para que entendam, é como a política romana do “Pão e Circo”, o governo fornece diversão e a população não se importa com mais nada.

“Promova concursos em que vençam as pessoas que se lembrarem da letra das canções mais populares ou dos nomes das capitais dos estados ou de quanto foi a safra de milho no ano anterior. Encha as pessoas com dados incombustíveis, entupa-as tanto com os “fatos” que elas se sintam empanzinadas mas absolutamente brilhantes.” Posição1179

E isso tudo é somente o começo da narrativa, na segunda e terceira parte nos deparamos com um Montag cada vez mais desesperado por desenvolver seu pensamento, ele não aceita mais a realidade sem questioná-la.

“E pensei nos livros. E pela primeira vez percebi que havia um homem por trás de cada um dos livros. Um homem teve de concebê-los. Um homem teve de gastar muito tempo para colocá-los no papel. Posição 1029

Montag se associa a Faber, um ex-professor e juntos começam um plano de destruir essa sociedade corrompida, daí pra frente teremos uma caçada humana e um desfecho com muita destruição.

Como sobreviver em uma sociedade que não permite a leitura e como perpetuar tradições e legados históricos sem a ajuda do papel? Leia essa obra e descubra se isso é possível.

“Talvez os livros possam nos tirar um pouco dessas trevas. Ao menos poderiam nos impedir de cometer os mesmos malditos erros malucos.” Posição 1346

Fahrenheit 451 foi uma leitura para o clube Cápsula Literária que tenho aqui em São Paulo. Me surpreendeu por ser tão impactante e apesar de antigo tratar de um assunto tão atual. Virei fã desse autor, principalmente depois de ler a Code no final da edição, onde ele expõe vários pontos de vista.

“Cada editor estúpido que se considera fonte de toda literatura insossa, como um mingau sem gosto, lustra sua guilhotina e mira a nuca de qualquer autor que ouse falar mais alto que um sussurro.” Posição 2916

O título se refere à temperatura em que o papel pega fogo e foi escolhido pelo autor após queimarem um livro mesmo!

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É um livro curto (a edição física tem em torno de 200 páginas) mas carrega um conhecimento muito intenso e profundo. Ray Bradbury pode ser considerado um visionário, construiu na década de 50 uma história que não foge a nossa atual realidade. Vivemos a era dos realitys show, interação em tempo real, o virtual tomando conta do mundo real. Informações muito rápidas e instantâneas e que não permitem que as pessoas processem devidamente cada uma! Fale por você, prefere ler um jornal ou ler uma nota no twitter???

“Eles apenas passam as respostas para você, pim, pim, pim e nós, sentados ali” Posição 640

Muito cuidado com o tempo que você dispensa com realidades alternativas. Tire um tempo pra caminhar, olhar o céu, as estrelas, a natureza. Converse mais cara a cara e menos pelos aplicativos. Sua família mora na sua casa, não são seus seguidores virtuais. Tudo é lícito, mas nem tudo nos convém. Usem a tecnologia a seu favor ou leiam Fahrenheit e descubram onde podemos ir parar se essa loucura não for impedida.

“Sob certo aspecto, portanto, Fahrenheit 451 não é uma distopia, mas um romance realista, que flagra a dialética demoníaca da sociedade de massas, em que as massas parecem ser títeres das elites, mas na qual as elites só existem em função das massas.” Posição 196

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19 comentários sobre “[RESENHA] FAHRENHEIT 451

  1. Mirelle Almeida disse:

    Oi, Vivi!
    Não conhecia o livro e fiquei impressionada pela quantidade de páginas. É curtinho! Ao começar a ler a resenha imaginei um outro Outlander (em quantidade de páginas, kkkk), mas apesar de ter poucas páginas percebi que o leitor aprende muito. Esse autor provou mais uma vez um dos poderes da literatura: permanecer no tempo. Apesar de ser um livro escrito faz muitas décadas, ele trata de questões contemporâneas. E isso é muito legal. Fiquei curiosa pra ler.
    Dica anotada!
    Beijos

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  2. Barbara Nonato disse:

    “Cada editor estúpido que se considera fonte de toda literatura insossa, como um mingau sem gosto, lustra sua guilhotina e mira a nuca de qualquer autor que ouse falar mais alto que um sussurro.” – Infelizmente, visto pela ótica contemporânea de quem escreve, isto ainda é uma realidade. Um dia muda!

    Não li ainda, mas vi diversas recomendações e acredito que seja algo que deva realmente ser lido. 🙂

    Curtido por 1 pessoa

  3. Livro e Letras| Alê Costa disse:

    Uau!! Lia comentários sobre o livro mas ainda nao havia lido u resenha. Tenho l o livro aqui e entrará como proxima leitura com certeza. Livros como esse precisam ser cada vez Maia difundidos para que nao fiquemos refens das TV’s e redes sociais com notícias sensacionalistas ou informações sobre a vida dos famosos. Livros como esse nos ajudam a questionar a nossa realidade e refletir sobre o que queremos para o nosso futuro.

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  4. Camila Mondaini disse:

    Oi Vivi!
    Que livro interessante! Eu já tinha ouvido falar mas nunca tinha lido uma resenha sobre ele e é impressionante como o autor escreveu isso na década de 50 como uma “fantasia” e é justamente isso que vivemos nos dias atuais. Muitas pessoas preferem se trancar em seus próprios mundos ao invés de socializar entre a família e amigos. Achei o livro com uma mensagem muito forte de que todos nós deveríamos rever nossos conceitos e pararmos de viver alienados. Gostei também da forma como ele escolheu o título!
    Com certeza vou querer ler!

    beijinhos!

    http://leiturize-se.blogspot.com.br/

    Curtido por 1 pessoa

  5. Isa disse:

    Arrasou na resenha, Vivi. Conseguiu expressar mto o quanto esse livro nos faz ficar alarmados com o caminho sociocultural que estamos tomando. E o que nos impressiona mais é que o autor tenha percebido isso mto tempo antes de nós. Esse livro é incrível! Podemos dizer até que é necessário, a gente tem que parar pra refletir sobre os erros que estamos cometendo como sociedade e o futuro que estomas criando. Amei sua resenha!

    Curtido por 1 pessoa

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