[RESENHA HISTÓRICA] 1808

1808-11808 – Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil

Autor: Laurentino Gomes

Editora Planeta do Brasil – Ed. 2007

Indicado para todas as idades

Skoob

“As pessoas fazem a História, mas raramente se dão conta do que estão realmente fazendo.” Christopher Lee

Ainda me recordo bem das minhas aulas de história na escola. Nenhuma delas chegou perto de me ensinar o que aprendi nesse livro.

Embora eu tenha aprendido que boa parte dos problemas políticos e sociais que temos no Brasil tenha sua causa na colonização, eu nunca imaginei que a influência desses colonizadores fosse tão grande.

Em 1808 quando a corte real portuguesa desembarcou no Brasil ela trouxe consigo aproximadamente 15 000 pessoas.

“O cálculo do número de passageiros é baseado em estimativas. As poucas listas oficiais relacionam 536 pessoas, mas o total era certamente maior, uma vez que ao lado dos nomes apareciam descrições imprecisas, como Visconde de Barbacena com sua família.” Pg. 65

A justificativa para tamanho descaso com os registros são as circunstâncias que levaram a viagem. Poucas são as explicações que temos sobre o assunto na escola.

A razão da partida para o Brasil tem nome e sobrenome: Napoleão Bonaparte. A mais de uma década ele vinha conquistando territórios e depondo reis. Estava no auge do seu poder e chegara a hora de conquistar Portugal. O regente Dom João VI (só seria declarado rei em 1816 após a morte de sua mãe, a rainha louca) recebeu a intimação de Napoleão em 1807, a França ia invadir Portugal. As opções de Dom João eram:

– Se render a França e ter a família destronada

– Se aliar a Inglaterra – única potência que havia resistido a Napoleão naquele momento.

– Lutar e defender seu país – o que para Dom João nem era uma opção. Ele era conhecido como tímido, medroso e indeciso.

– Usar um antigo plano de viagem. Mudar a corte para a rica colônia Brasil.

Se você fosse um regente medroso qual opção escolheria? Fugir, claro! Com essa fuga Portugal também escolheu se aliar a Inglaterra, recebendo sua escolta por todo o percurso no mar. Durante a leitura conhecemos o histórico político entre Inglaterra e Portugal, um histórico que justifica absolutamente essa decisão.

Mal sabia Dom João que ficar e defender o país seria uma opção muito boa, as topas francesas que chegaram a Portugal estavam em farrapos e despreparadas para qualquer batalha. Napoleão não acreditava que Portugal tentaria uma guerra, nisso ele estava certo, ele são não contava com a fuga para o Brasil.

“Foi o único que me enganou” Napoleão Bonaparte referindo-se a Dom João VI em suas memórias. Pg 29

Assim em novembro de 1807 toda a corte partiu para o Brasil, desembarcando em 1808 na Bahia e posteriormente no Rio de Janeiro.

Portugal era um país atrasado. Apesar de pioneiro na navegação e descobrimento de novas terras nada de novo continuou a ser produzido no país. Foram os últimos a acabar com a inquisição e o tráfico de escravos, eram extremamente religiosos e tradicionais, não havia incentivo cultural ou científico.

“Em Portugal não há ciência, nem há política, nem há economia, não há educação, nem há nobreza e não há corte” José da Cunha Brochado comparando a corte portuguesa com as demais monarquias europeias. Pg 60

Todo esse atraso desembarcou no Brasil. E nada acrescentaram para melhorar a colônia. Os portugueses chegaram com o pensamento de que o Brasil era um lar temporário, não investiram em infraestrutura ou ciência, mesmo a educação era extremamente precária. Em 1818, 10 anos após o desembarque da família real apenas 2,5% dos homens livres em idade escolar eram alfabetizados em São Paulo. Essa manipulação da ignorância era resultado da política portuguesa para manter o Brasil “sua joia extrativista” isolada da Europa, sem ideias próprias. Era muito cômodo para Portugal extrair todo o ouro, café e pau-brasil e enriquecer as custas da colônia. O preço pago por Portugal foi sua indústria precária, nada era produzido no país, tudo era importado e pago com as especiarias extraídas do Brasil, assim eles ficavam cada vez mais atrasados.

A maior herança deixada pela corte foi o famoso “jeitinho brasileiro”.

“Os novos hóspedes pouco se interessavam pela prosperidade do Brasil. Consideravam temporária a sua ausência de Portugal e propunham-se mais a enriquecer a custa do Estado do que administrar ou beneficiar o público.” John Armitage, historiador. Pg 169

Toda a corte que chegou ao Brasil era sustentada pela coroa e esses gastos eram imensos, para suprir essa necessidade financeira Dom João distribuiu no Brasil mais títulos de nobreza do que distribuiria a vida toda em Portugal.

A corte portuguesa recebia doações principalmente de traficantes de escravos e senhores de engenho, a “nobreza” da colônia brasileira. Em troca recebiam títulos do rei, ou seja, os maiores exploradores eram agraciados com recompensas do rei, praticamente compravam seus títulos.

O livro nos traz alguns versos que circulavam no Rio de Janeiro da época.

“Quem furta pouco é ladrão

Quem furta muito é barão

Quem mais furta e esconde

Passa de barão a visconde.”

Pg. 174

“Furta Azevedo no Paço

Targini rouba o Erário

E o povo aflito carrega

Pesada cruz do Calvário.”

Pg 175

Se vocês trocarem os nomes pelos nossos atuais políticos eu diria que são versos bem atuais. Nos mostram como a corrupção já era uma epidemia no Brasil colônia em 1800. E essa epidemia só piorou, a corte foi embora e o Brasil se tornou independente, mas a herança corrupta enraizou e permaneceu.

Eu sei que a resenha ficou grande, me perdoem, mas não consegui reduzir muito, precisava passar pra vocês a importância da leitura de 1808. Nosso país carece de pensadores a mais de 500 anos. Laurentino reuniu nessa obra relatos incríveis que deveriam ser explorados em todas as salas de aula do país. Entender o que aconteceu durante a colonização evitaria que todos os mesmos erros se repetissem. Conhecimento dá liberdade. É a chave para construir um futuro melhor. Parece idealista eu sei, mas vocês tem uma ideia melhor?

O livro também aborda a história de Carlota Joaquina, A rainha Maria (a louca) e o tráfico de escravos, principal comércio do Brasil colônia. Nos conta com riqueza de detalhes como era viver nesse período e até explica a criação dos morros do Rio de Janeiro. Muita fofoca boa!

Foi uma época única. E embora a vinda da corte portuguesa tenha gerado um crescimento descontrolado da população ela também abriu os portos do Brasil para o mundo e criou nosso povo de cultura rica. Ao concluir a leitura me peguei pensando no que poderia ter se tornado o país se nada disso tivesse acontecido. O desenvolvimento e crescimento, mesmo aos “trancos e barrancos” teria chegado onde estamos? Seríamos um povo melhor? Ou viveríamos como nossos antepassados indígenas? Como seria o Brasil sem Portugal? Vou ter que parar aqui, mas façam essa rica leitura, conheçam a história do Brasil, coloquem o cérebro pra pensar e tirem suas próprias conclusões.

PS: Essa edição é comemorativa e vem com capa dura com alto relevo, mais uma capa dourada em papel couché e dentro dessa caixa preta com as inscrições douradas. É uma obra para guardar para o resto da vida! Linda demais ♥

1808-laurentinogomes

Anúncios

2 comentários sobre “[RESENHA HISTÓRICA] 1808

Deixe seu comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s